Gênero e política: Um relato sobre checagem de fatos e notícias nas elei??es 2018

Introdu??o

Os últimos anos têm demonstrado, de maneira cada vez mais incisiva, a extens?o e os profundos impactos da dissemina??o de boatos, mentiras e imprecis?es sobre as mais diversas temáticas no ambiente virtual e, mesmo, nos meios de comunica??o tradicionais. Especificamente no cenário político, os mais recentes processos eleitorais no Brasil e no mundo trouxeram para o centro do debate a preocupa??o com as chamadas fake news: uma série de analistas têm apontado os riscos à democracia representados pela ondas de informa??es falsas, adulteradas, descontextualizadas ou incompletas. Com vasto poder de alcance e rápida dissemina??o, muitas dessas informa??es passaram a pautar o debate político e, mesmo, chegaram a influenciar os resultados dos processos eleitorais.

Foi diante da identifica??o deste cenário que idealizamos a Eté Checagem. No tupi, Eté significa verdade, verdadeiro. Percebendo o quanto as pautas vinculadas aos direitos humanos, mulheres, popula??o LGBTQ+, juventude e negritude vieram se tornando alvos preferenciais das fake news no cenário político brasileiro, criamos a Eté como a primeira agência de checagem especializada nessas temáticas do Brasil. Com apoio da Funda??o Heinrich B?ll, nosso projeto foi lan?ado em agosto de 2018 para cobertura das elei??es presidenciais, com o objetivo de checar dados, discursos, programas de governo e declara??es de todos os candidatos à Presidência, assim como informa??es e notícias veiculadas no ambiente virtual e na imprensa que envolvessem nossas temáticas de interesse. Neste artigo, compartilharemos um pouco de nossa experiência com a realiza??o de checagens no primeiro e segundo turnos das elei??es, com aten??o especial ao conteúdo apurado e produzido sobre mulheres e gênero.

Manifestante no ato do Dia Internacional da Mulher realizado em S?o Paulo em 8 de mar?o de 2019
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Manifestante no ato do Dia Internacional da Mulher realizado em S?o Paulo em 8 de mar?o de 2019

Direitos das mulheres e movimento feminista: destaque no primeiro turno

As pautas envolvendo direitos das mulheres, desigualdade salarial entre homens e mulheres, violência doméstica, violência contra mulheres negras, direitos reprodutivos e, também, o próprio movimento feminista destacaram-se no primeiro turno.? Nos debates entre candidatos à Presidência, seus discursos e declara??es e, ainda, nas informa??es e conteúdos veiculados através de redes sociais, os temas ganharam relevancia desde o início da campanha e, sobretudo, após as manifesta??es protagonizadas pelo movimento feminista em defesa de suas pautas.

A primeira checagem com pauta de gênero produzida pela Eté tratou da desigualdade salarial: ganhou grande destaque na mídia e nas redes sociais uma declara??o da ent?o candidata Marina Silva (REDE) em debate realizado pela Rede TV. Confrontando o ent?o candidato e atual Presidente da República Jair Bolsonaro (PSL), ela declarou: “Só uma pessoa que n?o sabe o que significa uma mulher ganhar um salário menor que os homens e ter a mesma capacidade, a mesma competência e ser a primeira a ser demitida e a última a ser promovida e quando vai na fila de emprego, só por ser mulher n?o ser aceita... é uma quest?o que tem que se preocupar, sim, porque quando se é presidente da República tem que fazer cumprir o artigo 5.o da Constitui??o Federal, que diz que nenhuma mulher deve ser discriminada. E n?o fazer vista grossa dizendo que n?o precisa se preocupar.”

A declara??o ganhou o selo de “Verdadeira”. Apuramos dados do Estudo de Estatísticas de Gênero, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que indicam que mulheres trabalham, em média, três horas por semana a mais do que os homens, combinando trabalhos remunerados, afazeres domésticos e cuidados de pessoas. Mesmo assim, e ainda contando com um nível educacional mais alto, elas ganham, em média, 76,5% do rendimento dos homens. “Apesar de a diferen?a entre os rendimentos de homens e mulheres ter diminuído nos últimos anos, em 2016 elas ainda recebiam o equivalente a 76,5% dos rendimentos dos homens. Uma combina??o de fatores pode explicar essa diferen?a. Por exemplo, apenas 39,1% dos cargos gerenciais eram ocupados por mulheres. Essa diferen?a aumentava com a faixa etária, indo de 43,1% de mulheres em cargos de chefia no grupo até 29 anos de idade até? 31,8% no grupo de 60 anos ou mais”, diz o texto da checagem. O tema foi abordado ainda muitas outras vezes pelos candidatos, e uma série de checagens sobre diferen?a salarial foi produzida a partir de dados públicos.

Apuramos, ainda, declara??es sobre violência doméstica, apresentando dados do 12o Anuário Brasileiro de Seguran?a Pública, lan?ado pelo Fórum Brasileiro de Seguran?a Pública em 2018. Confirmamos que 221.238 casos de violência doméstica contra a mulher foram registrados em 2017. Outros temas apurados vinculados a gênero foram: saúde da mulher (declara??o do ent?o candidato Ciro Gomes sobre atendimento a mulheres com cancer de mama, que n?o foi confirmada pelos dados públicos disponíveis); desigualdade na realiza??o do trabalho doméstico; violência contra mulheres negras e estatísticas nacionais e internacionais de feminicídios. Outro tema que ganhou bastante repercuss?o foi a declara??o do atual Vice-Presidente da República, Hamilton Mour?o, indicando a rela??o entre a incidência de lares chefiados por mulheres e o aumento dos índices de criminalidade com narcotráfico nessas famílias: checamos os dados do Instituto Brasileiro de Pesquisa Econ?mica Aplicada (Ipea) e constatamos a impossibilidade de estabelecimento dessa rela??o, classificando a declara??o como “Falsa”.

Movimento Feminista e Redes Sociais

Ainda no primeiro turno, as manifesta??es nacionais organizadas por movimentos feministas em defesa dos direitos das mulheres e em repúdio aos posicionamentos do ent?o candidato Jair Bolsonaro ocuparam lugar de destaque no cenário político, nos noticiários e também entre os conteúdos produzidos e veiculados nas redes sociais. A cria??o do grupo “Mulheres Unidas Contra Bolsonaro” no Facebook impulsionou a realiza??o das manifesta??es e foi objeto de reportagens, boatos e uma série de polêmicas. Menos de uma semana após sua cria??o, o grupo reuniu mais de 2 milh?es de mulheres. Na madrugada do dia 15/9, foi alvo de hackers e retirado do ar. No dia seguinte, um domingo, foi restabelecido e ganhou mais 500 mil participantes, que intensificaram a atua??o nas redes para a convoca??o das manifesta??es.

Nesse contexto, come?aram a circular rapidamente pelas redes sociais uma série de acusa??es ao grupo, uma delas repercutida por dois dos filhos de Jair Bolsonaro, ent?o candidatos a deputado federal e senador. A acusa??o dizia que o grupo n?o era espontaneo, e teria sido comprado pelos movimentos feministas quando já possuía um número significativo de integrantes - o que explicaria seu alto número de participantes. Checamos essa denúncia, que recebeu o selo “Falso”. A própria assessoria do Facebook confirmou que o grupo fora criado em 30 de agosto, já com o nome "Mulheres Unidas contra o Bolsonaro" e que fora removido temporariamente após detec??o de “atividade suspeita”, quando invadido por hackers. A repercuss?o, especialmente online, sobre a cria??o do grupo e, mais ainda, sobre as manifesta??es dos movimentos feministas indicou o quanto o protagonismo feminino na política brasileira ainda é fator de estranhamento e, mesmo, alvo de preconceitos machistas. Logo após a realiza??o das manifesta??es, recebemos uma série de conteúdos apócrifos que circulavam no WhatsApp e redes sociais utilizando fotos descontextualizadas de mulheres nuas, seminuas e ingerindo bebidas alcóolicas e drogas ilícitas para afirmar que seriam fotos das manifesta??es. Algumas delas foram identificadas como fotos feitas anos atrás, em contexto diverso das elei??es.

Fake news, mulheres e política: para além das elei??es

A experiência de checagem sobre pautas de gênero no período eleitoral acentuou nossa percep??o acerca dos obstáculos ainda colocados de maneira incisiva para a atua??o, a inser??o e o protagonismo de mulheres na política nacional, seja institucional ou vinculada a movimentos sociais. No segundo turno do período eleitoral, o grande volume de boatos e notícias falsas envolvendo Manuela D’Avilla (PCdoB), ent?o candidata à Vice-Presidência na chapa de Fernando Haddad, refor?am esse argumento. A grande maioria dos boatos e difama??es à candidata a atingiam em rela??o à sua sexualidade, vida pessoal e relacionamentos interpessoais.

Destacamos, ainda, os atos de violência praticados contra a memória de Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro assassinada em mar?o de 2018. Logo após sua execu??o, circularam intensamente pelas redes sociais conteúdos que buscavam deslegitimar sua atua??o política e, inclusive, afirmavam que a vereadora seria “casada com um traficante”. No segundo turno das elei??es, a Eté se destacou checando em primeira m?o as informa??es acerca de mais um ato de violência contra a memória de Marielle, quando uma placa em sua homenagem foi quebrada violentamente e exibida como troféu em um comício. Confirmarmos que as fotos que mostravam a presen?a do ent?o candidato e atual governador do estado do Rio de Janeiro Wilson Witzel no palanque do comício eram verdadeiras.

Mais recentemente, assistimos à grande onda de boatos e difama??es, também majoritariamente disseminados no ambiente virtual, contra Sabrina Bittencourt, ativista responsável pela denúncia de abusos sexuais cometidos por importantes lideran?as religiosas do Brasil e do mundo. Em dezembro do ano passado, boatos afirmando que a ativista teria cometido suicídio se multiplicaram pelas redes sociais e chegaram a atingir sua família. Em fevereiro deste ano, após intensa persegui??o e difama??o, Sabrina Bittencourt suicidou-se e publicou uma carta em suas redes sociais relatando as amea?as, coa??es e press?es às quais vivia submetida.

Reafirmamos, a partir de nossa experiência como jornalistas independentes atuando na cobertura de pautas de gênero e política, a necessidade de identifica??o e visibilidade dos mecanismos de coa??o e constrangimento à presen?a de mulheres protagonistas no cenário político. Além disso, refor?amos o papel do jornalismo independente, sobretudo aquele produzido por mulheres, na produ??o de informa??es de qualidade, checadas e posicionadas em defesa dos direitos das mulheres para a revers?o desse cenário.

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